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CURRÍCULO

É sabido que em cada momento histórico, há uma incansável busca por idéias chaves que sejam capazes de explicar como se percebe o mundo, procurando entender como ele é.

A globalização tem sido nos últimos anos o termo escolhido para explicar a conjuntura e as inter-relações econômicas, políticas, e sócio-culturais estabelecidas entre indivíduos e nações. Papel fundamental nessa realidade tem exercido os meios de comunicação, que constroem de maneira particular uma nova realidade por meio da seleção de informações que veiculam.

Concordamos com Sacristán (2003) ao afirmar ser a globalização um conceito utilizado para caracterizar a peculiaridade do tempo presente, reconhecido como a segunda modernidade:

"... Refere-se a fenômenos, processos em curso, realidades e tendências muito diversas que afetam diferentes aspectos da cultura, as comunicações, a economia, o comércio, as relações internacionais, a política, o mundo do trabalho, as formas de entender o mundo e a vida cotidiana, os quais, como podemos ver, portam um significado pouco preciso.” (SACRISTÁN, 2003 p.50)"

O mundo globalizado é um mundo em rede, cujas partes são interdependentes, no qual se adotam padrões de comportamento, modelos culturais e onde são traçados projetos. É um mundo com muitas possibilidades de comunicação, suas partes se conhecem entre si, se influenciam e se apóiam, ou não. Parece constituir-se um todo, entretanto, pouco coeso, resultado de imposições de grupos hegemônicos sobre os que estão em inferioridade de condições, de hibridizações culturais e etc.

Entendemos que a educação, característica da realidade da economia, da sociedade e da cultura, é inevitavelmente afetada pelas mudanças suscitadas pelo processo de globalização. Os critérios acerca do que se entende por qualidade na educação, têm sido amplamente influenciados pelas políticas neoliberais, que “desvalorizaram o sistema educativo como um fator de integração e inclusão social, em favor do incremento da iniciativa privada, da ideologia que busca um maior acoplamento do sistema escolar ao mundo do trabalho e às necessidades da produtividade econômica, apoiando-se e acentuando as desigualdades sociais”. (SACRISTÁN, 2003, p.51)

Acreditamos ainda, que a globalização afeta a educação porque incide sobre os sujeitos, os conteúdos do currículo e as formas de aprender.

Desse modo, discutiremos com mais afinco a questão do currículo, quer como simples expressão da ideologia dominante, quer como um conjunto de princípios científicos para organização e acompanhamento do processo de ensino. Tal discussão se dará mediante uma contextualização histórica e a realização do debate sobre a questão do currículo também no interior do campo acadêmico da educação física.

BREVE HISTÓRICO SOBRE CURRÍCULO

Segundo Moreira (1990) os sociólogos das disciplinas escolares, defendem que a história do currículo tem por meta explicar porque certo conhecimento é ensinado em determinado momento e local e por que ele é conservado, excluído ou alterado.

Domingues (1985,1986) apud Moreira (1990) ao desvelar o caráter ideológico do campo do currículo, enfatiza sua harmonia com os princípios norteadores dos governos militares nos anos setenta. Ao mesmo tempo, chama a atenção para a subserviência de nossos teóricos ao pensamento curricular americano e para a falta de modelos de análise mais adequados ao contexto brasileiro. Considera o discurso brasileiro sobre currículo uma conseqüência tão direta e sólida das tentativas americanas de aumentar nossa dependência cultural que torna-se difícil entender como foi possível uma orientação crítica no campo.

Para Moreira (1990) as origens do pensamento curricular no Brasil podem ser localizadas nos anos 20 e 30, quando importantes transformações econômicas,sociais, culturais, políticas e ideológicas processaram-se em nosso país. Argumenta que a literatura pedagógica da época refletia as idéias propostas por autores americanos associados ao pragmatismo e às teorias elaboradas por diversos autores europeus, buscando superar as limitações da antiga tradição pedagógica jesuítica e da tradição enciclopédica, que teve origem com a influência francesa na educação brasileira, e esforçavam-se para tornar o quase inexistente sistema educacional, consistente no novo contexto.

Para o mesmo autor, as primeiras infra-estruturas no campo do currículo corresponderam, inicialmente, às reformas promovidas pelos pioneiros nos estados, e a seguir, à base institucional do Instituto Nacional Estudos e Pesquisa Anísio Teixeira (INEP) e do Programa de Assistência brasileiro-americana à Educação Elementar (PABAEE). Afirma que a tradição epistemológica que fundamentou tanto as reformas como o enfoque curricular desenvolvido pelo INEP foi basicamente compostas por idéias progressivistas derivadas do pensamento de Dewey e Kilpatrick. Tais idéias, segundo Saviani (1983) apud Moreira (1990), foram bastante influentes no cenário educacional brasileiro até o início da década de sessenta.

Algumas reformas ocorridas na década de vinte nos estados da Bahia, em Minas Gerais e no Distrito Federal foram inovadoras e trouxeram sugestões referentes à organização curricular e de programas, constituindo o primeiro esforço de sistematização do processo curricular.

Essas transformações representaram um importante rompimento com o modelo educacional tradicional, por sua preocupação em renovar o currículo, por sua insistência na democratização da sala de aula e da ralação entre aluno e professor.

Apesar da expressa preocupação com a reconstrução social, a maior contribuição das reformas acabou por limitar-se a novos métodos e técnicas. Essa ambigüidade pode ser interpretada como refletindo, em certo grau, as idéias liberais dominantes e a influência do processo de modernização das escolas americanas e européias. (MOREIRA, 1990, p. 72)

Quanto ao desenvolvimento do campo do currículo no INEP, criado em 1938 para funcionar como centro de estudos de todas as questões educacionais relacionadas ao Ministério da Educação e Saúde, Moreira (1990) afirma que o pensamento do INEP sobre a questão tinha suas raízes em Dewey e Kilpatrick, no entanto, era diretamente derivado da forma como os pioneiros, principalmente Anísio Teixeira, interpretaram esses autores e os aplicaram à realidade brasileira. Havia uma preocupação com a prática, com modos científicos e coma realidade do aluno. Apesar da influência americana, realizava-se pesquisas em nosso país e buscava-se aparentemente, construir currículos “brasileiros”.

Já no PABAEE, a principal preocupação no trabalho com o currículo pareceu, ser de fato com procedimentos, métodos e recursos e que a principal fonte foi o discurso curricular americano.

A partir de 1964, com o golpe militar e as transformações no panorama político, econômico, ideológico e educacional, e por meio de diversos acordos assinados com os Estados Unidos que visavam à modernização e racionalização do país ocorreu o aumento e dispersão das discussões sobre o currículo.

“... A tendência tecnicista passou a prevalecer, em sintonia com o discurso de eficiência e modernização adotado pelos militares, e diluiu não só a ênfase às necessidades individuais da tendência progressivista, mas também as intenções emancipatórias das orientações críticas, incompatíveis com a doutrina da segurança nacional que passou a ser a eficiência do processo pedagógico indispensável ao treinamento adequado do capital humano do país.” (MOREIRA, 1990 p.83).

Segundo Arroyo (1980) o sistema educacional brasileiro foi reorganizado pelos militares: a preocupação com o ensino secundário, ensino profissionalizante, formação de professores e ensino superior refletiu uma estrutura ocupacional mais especializada. Semelhantemente à divisão do trabalho na sociedade mais ampla, o trabalho pedagógico fragmentou-se para tornar o sistema educacional mais efetivo e produtivo. Como conseqüência, os professores começaram a usar técnicas e metodologias criadas por experts, simplificadas e transmitidas por supervisores. Foi diretamente a essa nova especialização, a supervisão escolar, que o campo do currículo se associou desde a sua emergência.

Moreira (1990) afirma que tão logo uma política de descompressão foi adotada pelo presidente Geisel em 1974, análises críticas de questões curriculares começaram a aparecer, tornado-se bastante influentes na década de oitenta.

Para o mesmo autor, a influência das condições internacionais na evolução do campo do currículo foi, nos anos oitenta, significativamente diferente da que se verificou anteriormente: a influência de autores europeus aumentou, ao passo que a de autores americanos diminuiu. Tanto as forças inter-relacionadas de redemocratização do país, como a criação de espaços institucionais para discussões e propostas críticas, constituíram-se em elementos cruciais na definição das principais tendências do campo contemporâneo do currículo e das respostas às questões curriculares levantadas.

Conforme Moreira (1996,1999) os principais autores de currículo no Brasil reconhecem essas influências, ressaltando, contudo, sua ambivalência. Por um lado, enfatizam a importância de conhecer o que está sendo formulado em países nos quais se desenvolvem significativos estudos de questões curriculares. Por outro, sustentam que devemos ser mais críticos em relação a esse discurso, e que precisamos desenvolver análises mais adequadas ao contexto brasileiro.

O exame da produção cientifica brasileira elaborada nos anos 90 confirma que a presença de teóricos estrangeiros, especialmente dos associados à teoria curricular crítica, ainda é bastante visível nas bibliografias. Nos últimos anos, temas derivados dos estudos culturais, de raça e de gênero já começaram a se fazer notar no pensamento brasileiro, seguindo as novas tendências internacionais. Embora em alguns casos a apropriação se faça sem um efetivo diálogo com nossa realidade, em outros, a incorporação das discussões envolve um acentuado processo de recontextualização crítica. (MACEDO e FUNDÃO 1996; MOREIRA 1996 e 1997 apud MOREIRA 1999, p.12)

O currículo constitui, portanto, um significativo instrumento utilizado por diferentes sociedades “tanto para desenvolver os processos de conservação, transformação e renovação dos conhecimentos historicamente acumulados como para socializar as crianças e os jovens segundo valores tidos como desejáveis.” (MOREIRA, 1997, p.11)

CURRÍCULO E EDUCAÇÃO FÍSICA

Somente em 1929, após de diversas tentativas não concretizadas, ocorreu a habilitação da primeira turma de professores especializados em Educação Física, quando o governo investiu na formação destes profissionais com a criação do Curso Provisório de Educação Física.

Na época inexistiam escolas civis, deste modo, as escolas militares é que de forma precursora preparavam os recursos humanos na área de Educação Física, prevaleceu assim, a construção de “um projeto de homem disciplinado, obediente, submisso, profundo respeitador da hierarquia social” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p.53).

A área da Educação Física além da influência recebida dos militares, recebeu também, influência da instituição médica, que trazia o ideal de reconstrução da educação brasileira em “bases científicas”. Esta instituição configurou-se, para a Educação Física, como matriz em relação ao seu conteúdo, onde predominou o desenvolvimento da aptidão física dos indivíduos.

Dessa maneira, a instituição médica e militar, caracterizam os conteúdos e métodos da Educação Física brasileira, “além de condicionar a prática dos profissionais que atuavam antes das primeiras iniciativas de formação profissional mais sistemáticas, nesta área” (MORO, 1998, p. 26).

Foi apenas no ano de 1931 que foi criada a primeira escola civil de formação profissional em Educação Física, a Escola de Educação Física do Estado de São Paulo, entrando em funcionamento no ano de 1934. Ainda nos anos 1930 foi criada a Escola Nacional de Educação Física – ENEFD, na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

A ENEFD tornou-se referência para a sistematização da formação do profissional de Educação Física, ocasionando a uniformidade dos demais currículos das escolas superiores de Educação Física até os anos de 1950. O curso superior de Educação Física tinha a duração de dois anos e tinha a seguinte seriação de disciplinas:

Primeira Série:

1 - Anatomia e Fisiologia Humana
2 - Cinesiologia
3 - Higiene Aplicada
4 - Socorros de urgência
5 - Biometria
6 - Psicologia Aplicada
7 - Metodologia da educação física
8 - História da educação física e dos desportos
9 - Ginástica Rítmica
10 - Educação Física geral
11 - Desportos Aquáticos
12 - Desportos terrestres individuais
13 - Desportos terrestres coletivos
14 - Desportos de ataque e defesa

Segunda Série:

1 - Cinesiologia
2 - Fisioterapia
3 - Biometria
4 - Psicologia Aplicada
5 - Metodologia da educação física
6 - Organização da educação física e dos desportos
7 - Ginástica Rítmica
8 - Educação Física geral
9 - Desportos Aquáticos
10 - Desportos terrestres individuais
11 - Desportos terrestres coletivos
12 - Desportos de ataque e defesa

Para habilitação de profissionais da educação era exigido nesse período, o curso secundário complementar, enquanto que para a ENEFD, exigia-se dos candidatos apenas o curso secundário fundamental.

Foi só a partir de 1945 que passou-se a exigir a conclusão do Curso Secundário Completo (Clássico ou Científico) e a duração do curso para a formação do professor de Educação Física passou para três anos. Tais medidas foram tomadas com o intuito de aproximar a formação do profissional de Educação Física com os demais do magistério. No entanto, outros aspectos eram necessários para esta aproximação, além da duração e exigência de ingresso para o curso de Educação Física. O currículo, por força de condicionantes históricos, configurou-se à margem das necessidades educacionais e a Educação Física, dentro das escolas, ficou alheia aos objetivos educacionais e ao universo escolar.

Com a criação do Conselho Nacional de Educação e a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em 1961, começou um novo período para a Educação Física brasileira.

Em 1962 foi proposto o curso superior de Educação Física e o de técnico desportivo com a duração de três anos. Além disso, foram estabelecidos os Currículos mínimos dos cursos de Educação Física e Desportos, que orientaram a formação do professor de Educação Física e do Técnico Desportivo até 1969.

I – Curso Superior de Educação Física:

1 - Anatomia e Fisiologia Humana
2 - Psicologia
3 - Pedagogia
4 - Cinesiologia
5 - Higiene
6 – Fisioterapia Psicologia Aplicada
7 - Socorros de urgência
8 - Biometria
9 - Organização e Administração da Educação Física e dos Desportos
10 - Ginástica
11 - Desportos
12 - Dança
13 - Recreação
14 - Matérias pedagógicas de acordo com o parecer nº 292

II – Curso de Técnica Desportiva
As matérias enumeradas de 1 a 12 no curso nº I
Dois desportos (especialização)
Matérias pedagógicas (Parecer nº 292)
Esses currículos mínimos as escolas poderão acrescentar outras matérias obrigatórias ou facultativas. (BRASIL,CFE, Parecer nº298 de 17 de Novembro de 1962)

A partir de 1969, por meio da Resolução n° 69, foram fixados os mínimos de conteúdo e duração do curso de Educação Física, determinado que a formação de professores de Educação Física seria feita em curso de graduação que conferiria o título de Licenciado em Educação Física e Técnico em Desportos, com a duração mínima de 1800 horas-aula, ministrada no mínimo em três anos e no máximo em cinco anos.

O currículo mínimo passou a ser constituído pelas seguintes matérias:

1 – Matérias básicas:
1.1 - Biologia
1.2 - Anatomia
1.3 - Fisiologia
1.4 - Cinesiologia
1.5 - Biometria
1.6 - Higiene

2 – Matérias profissionais
2.1 - Socorros Urgentes
2.2 - Ginástica
2.3 - Rítmica
2.4 - Natação
2.5 - Atletismo
2.6 - Recreação
2.7 - Matérias pedagógicas de acordo com o Parecer 672/69.
(BRASIL, CFE, Resolução nº 69 de Novembro de 1969).

Por mais de oito anos, essa Resolução permaneceu como base para a organização dos cursos de formação em Educação Física. Evidencia-se nessa Resolução, o predomínio das disciplinas da área biomédica, em detrimento das disciplinas pedagógicas. “Paradoxalmente, o curso é de formação de professores, e os conteúdos da pedagogia nunca passaram de mero apêndice no currículo.” (OLIVEIRA, 2002, p.41)

No final da década de 1970 foram realizados diversos encontros e seminários no Brasil, reunindo professores de Educação Física; técnicos desportivos, médicos e acadêmicos, que preocupados com a formação oferecida pelas Escolas Superiores de Educação Física, discutiram as reformas necessárias no currículo dos cursos de graduação em Educação Física.

Essas discussões desencadearam em 1987, a aprovação do Parecer do Conselho Federal de Educação nº 215/87. Este parecer tratou da “reestruturação dos cursos de graduação em Educação Física, sua nova caracterização, mínimos de duração e conteúdo” (BRASIL, CFE, 1987). De acordo com este parecer, a formação dos profissionais de Educação Física seria feita em curso de graduação que conferiria o título de Bacharel e/ou Licenciado em Educação Física, o curso passou a ter a duração mínima de 4 anos e máxima de 7 anos, compreendendo uma carga horária mínima de 2880 horas-aula.

Com relação aos currículos o parecer nº 215/87 dispôs que os mesmos teriam duas partes: a Formação Geral (humanística e técnica) e aprofundamento de conhecimentos. “A Formação Geral, em bases científicas, considerará dois aspectos, o humanístico e o técnico, os quais reunirão as matérias a serem ministradas em quatro áreas do conhecimento definidas” (BRASIL, CFE, Resolução nº3, 1987):

 

a)De cunho humanístico

CONHECIMENTO FILOSÓFICO

- Compreendido como conhecimento filosófico o resultado da reflexão sobre a realidade; seja no nível da práxis, a própria existência cotidiana do professor e do Bacharel em Educação Física, relacionada com eventos históricos, sociais, políticos, econômicos; seja no nível da teoria, apresentação rigorosa através das ciências dessa mesma práxis. O conhecimento filosófico deve consistir na articulação da práxis pedagógicas com as teorias sobre o homem, a sociedade e a técnica.

CONHECIMENTO DO SER HUMANO

- Entendido como o conjunto de conhecimentos sobre o ser humano, durante todo seu ciclo vital, no que concerne aos seus aspectos biológicos e psicológicos, bem como sua interação com o meio ambiente, face à presença ou ausência de atividades de Educação Física.

CONHECIMENTO DA SOCIEDADE

- Entendido como a compreensão da natureza social das instituições, sistemas e processos, com vistas a uma efetiva contribuição da Educação Física para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, considerando-se especificamente a realidade brasileira.

b) De cunho técnico (que deverá ser desenvolvido de forma articulada com os conhecimentos das áreas de cunho humanístico acima referidas):

- Entendido como o conjunto de conhecimentos e competências para planejar, executar, orientar e avaliar atividades da Educação Física, nos campos da Educação Física Escolar e Não-Escolar, contribuindo para a geração e a transformação do próprio conhecimento técnico.

 

Do total de 2880 horas-aula, pelo menos 80 % seriam destinadas à Formação Geral e um mínimo de 20% para Aprofundamento de Conhecimentos.

Com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, foram extintos os currículos mínimos dos cursos de graduação e também os mínimos de conteúdo e duração a serem observados nos cursos de graduação em Educação Física.

Para a apresentação de propostas para as novas diretrizes curriculares do curso de Educação Física, foi designada pela Secretaria de Ensino Superior (SESu/MEC) uma comissão de especialistas para coordenar um processo de avaliação da Resolução nº03/ 87, que normatizou desde 1987 a formação profissional da área.

A Comissão de Especialistas de Ensino em Educação Física (COESP-EF), designada em 03 de março de 1998 e composta pelos professores: Eleonor Kuns (UFSC), Wagner Wey Moreira (UNIMEP), Hélder Guerra Resende (UGF), Iran Junqueira de Castro (UnB) e Emerson Silame Garcia (UFMG), procurou aprimorar a resolução nº 03/87, bem como corrigir algumas distorções constatadas ao longo destes doze anos de vigência.

A COESP-EF, considerando as manifestações críticas e as sugestões das Instituições de Ensino Superior, apresentou a sua versão reformulada que foi encaminhada ao Conselho Nacional de Educação. A proposta indicou que a formação dos profissionais de Educação Física seria feita em curso de graduação em Educação Física, com aprofundamento em um ou mais campos de aplicação profissional, de modo atender “às diferentes manifestações da cultura do movimento presentes na sociedade, considerando as diferenças regionais e os diferentes interesses identificados com o campo de atuação profissional” (BRASIL, MEC, COESP_EF, 1999, p.1) e que os cursos de Educação Física teriam a duração mínima de 4 anos e máxima de 7 anos, compreendendo uma carga horária de 2880 horas-aula, incluídos a prática de ensino ou estágio profissional supervisionado e o trabalho de conclusão de curso.

Dispôs que os currículos plenos teriam duas partes: Conhecimento Identificador da Área e Conhecimento Identificador do Tipo de Aprofundamento. O Conhecimento Identificador da Área, comum e necessário a qualquer campo definido de aplicação profissional, seria estruturado por dois níveis de formação: Formação Básica e Formação Específica.

No ano de 2002, a partir do convite do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e do acúmulo de reflexões desenvolvidas até então, representantes de instituições e entidades ligadas à área, formularam um documento com o objetivo de fazer chegá-lo aos membros do Conselho Nacional de Educação, em especial ao Relator, Carlos Alberto Serpa de Oliveira, colaborando com mais subsídios para os trabalhos finais de elaboração das mencionadas diretrizes. Estabeleceu que o currículo seria concebido como um fenômeno histórico, resultado das relações sociais, políticas e pedagógicas, orientado na organização de saberes vinculados à formação do ser humano.

O documento supracitado fixou que a formação dos profissionais de Educação Física seria feita em curso de graduação que conferiria o título de graduado em Educação Física, com formação de natureza generalista, humanista, crítica e reflexiva e que, o tempo de integralização dos Cursos seria definido pelas Instituições de Ensino Superior, respeitando o mínimo de duração de 4 anos e a carga horária mínima de 2800 horas.

Assim como a COESP-EF, o documento sugeriu que os currículos plenos para os cursos de Graduação em Educação Física seriam constituídos por duas partes: Conhecimento Identificador da Área e Conhecimento Identificador do Aprofundamento de Estudos.

Ainda no ano de 2002, foi aprovado pelo Conselho Nacional de Educação, o Parecer CNE/CES nº 0138 que tratou das novas Diretrizes Nacionais do Curso de Graduação em Educação Física e, no qual a Educação Física seria identificada como pertencente à área de Saúde.

A formação dos profissionais de Educação Física seria feita em curso de graduação que conferiria o título de Graduado em Educação Física e “Graduado em Educação Física com Licenciatura em Educação Física” (cic), (licenciatura plena). A formação dos licenciados para atuarem com a disciplina Educação Física deveria seguir as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores de Educação Básica. O referido parecer não estipulou os mínimos de conteúdo e duração a serem observados nos cursos de graduação em Educação Física. Indicou apenas, que os conteúdos devem contemplar as seguintes áreas:

 

- Conhecimentos Biodinâmicos da Atividade Física/Movimento Humano (morfológicos, fisiológicos e biomecânicos);

- Conhecimentos Comportamentais da Atividade Física/ Movimento Humano (mecanismos e processos de desenvolvimento motriz, aquisição de habilidades e fatores psicológicos);

- Conhecimentos Sócio-Antropológicos da Atividade Física/ Movimento Humano (filosófico, sociológico e histórico que enfocam aspectos éticos, estéticos, culturais e epistemológicos);

- Conhecimento Científico-Tecnologicos (técnicas de estudo e de pesquisa);

- Conhecimentos Pedagógicos (princípios gerais e específicos de gestão e organização das diversas possibilidades de intervenções do profissional no campo de trabalho e de formação);

- Conhecimentos Técnico-Funcionais Aplicados (teóricos metodológicos aplicados ao desempenho humano identificado com as diferentes manifestações da Atividade Física/ Movimento Humano/Motricidade Humana);

- Conhecimentos sobre a Cultura das Atividades Físicas/Movimento Humano (diferentes manifestações da cultura das atividades físicas nas suas formas de jogos, esportes, ginásticas, danças, lutas, lazer, recreação e outros);

- Conhecimento sobre equipamentos e materiais (diferentes equipamentos e materiais e suas possibilidades de utilização na ação pedagógica e técnico cientifica com as manifestações de Atividade Física/ Movimento Humano).

(CNE/CES, Parecer nº 0138, 2002, p.7).

 

Oliveira (2002) faz um estudo comparativo entre os pareceres e resoluções acerca da formação profissional em Educação Física. Afirma que o curso de Bacharelado em Educação Física surgiu pela primeira vez, no texto do parecer nº215/87, não estando presente nos documentos e discussões anteriores sobre essa área de formação.

A inclusão do bacharelado não foi isenta de críticas no meio acadêmico. Carmo (1984) posicionou-se como um dos críticos mais contundentes contra a formação de Licenciados e Bacharéis. Para este autor, as explicações contidas no parecer nº215/87, causaram estranheza, dado ao aspecto contraditório, deixando transparecer inclusive a incapacidade mesmo em nível teórico, de distinguir o que representa em currículo, as disciplinas de conteúdos e as pedagógicas, tanto para o licenciado como para o bacharel. “Não conseguimos captar esta separação na área do movimento humano, do ser que pensa e sente, principalmente porque, tanto para o Bacharel como para o Licenciado, o homem em movimento é seu objeto de estudo” (CARMO, 1984, p.23).

Em defesa do Bacharelado em Educação Física posicionou-se entre outros autores, José Guilmar Mariz de Oliveira (1990) da USP, que considerou a ausência de proteção e/ou a indefinição de qualificação profissional para o mercado de trabalho, relacionado com a Educação Física na área não-escolar, em razão da falta de regulamentação da profissão e da inexistência de entidades sindicais específicas. Assim, para o referido autor o Bacharelado favoreceria a proteção e a definição de qualificação profissional.

 

Longe de tornar-se uma unanimidade, a inclusão do Bacharelado, a partir do Parecer nº215/87, provocou, pelo contrário, uma polarização no meio acadêmico. A tarefa de se entender o bacharelado e a licenciatura como modalidades distintas, criou confusão, disputas e articulações durante e após a implementação da Resolução nº03/87. (OLIVEIRA, 2002, p.65)

No parecer nº138/2002 permaneceu a formação do licenciado em Educação Física, que deverá estar capacitado atuar na Educação Básica e na Educação Profissional, em conformidade com as novas diretrizes curriculares para a formação de professores para a Educação Básica, e conforme tinha sugerido a Comissão de Especialistas (1999), a formação do Graduado em Educação Física.

Ainda com relação à questão da Licenciatura e do Bacharelado em Educação Física:

Não conseguiram solucionar ou sequer apontar caminhos para resolver as questões existentes na área da formação profissional de Educação Física. A pergunta quem é o profissional de Educação Física, continua em aberto. Se antes não conseguiram delimitar o que entendia por licenciado e por bacharel, agora com o advento desse parecer, não conseguimos estabelecer a diferença entre o Graduado em Educação Física e o Graduado em Educação Física com Licenciatura. Mais uma vez, questões secundárias prevaleceram, sobre as principais ou ainda, as manifestações dos problemas ocuparam o verdadeiro lugar do problema. (CARMO, 2002, p.16)

Sinteticamente, após 1987, podemos apontar avanços relacionados à extinção do currículo mínimo obrigatório, facultando aos colegiados e/ou entidades a elaboração do mesmo, através de campos/áreas de conhecimento.

A polêmica criada com a inclusão do bacharel não se esgotou com as novas diretrizes curriculares, pois estas continuaram a desconsiderar a questão epistemológica, ou seja, a origem dos conhecimentos veiculados na Educação Física, indicando novamente perfis profissionais distintos (Graduado em Educação Física e Graduado em Educação Física com Licenciatura em Educação Física). (OLIVEIRA, 2002, p.70)

O CURSO DE GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

Em 1969, Homero Santos, então deputado Estadual , idealizou uma instituição chamada Autarquia Educacional de Uberlândia (AEU), uma autarquia estadual para criar escolas superiores na cidade. Inicialmente, foram criadas a Faculdade de Odontologia e a Faculdade de Medicina Veterinária (na cidade de Tupaciguara) e, em agosto de 1971 foi aprovado o parecer nº 140 do Conselho Estadual de Educação, que apreciava pedido de autorização de funcionamento da Escola de Educação Física da Autarquia Educacional de Uberlândia. Em outubro do mesmo ano, por meio do Decreto nº 69.410, assinado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, foi autorizado o funcionamento da Escola de Educação Física da Autarquia Educacional de Uberlândia.

A criação do curso se deu principalmente para atender o Estado de Minas Gerais, carente de profissionais formados e habilitados para o magistério especializado para sua rede de ensino fundamental e médio, alem da demanda do próprio ensino superior por profissionais desta área.

A Escola Superior de Educação Física teve suas atividades acadêmicas iniciadas em fevereiro de 1972, e integrou-se à Universidade de Uberlândia (UnU) em 1975. Com a Federalização da UnU em 1978, recebeu a denominação de Curso de Graduação em Educação Física (Licenciatura Plena) do departamento de Educação Física e Esportes da Universidade Federal de Uberlândia.

De 1972 a 1977, o curso funcionou no turno diurno, passando em 1978 para o noturno, em virtude do elevado número de desistência e evasão de alunos.

Quanto ao seu currículo, de 1972 a 1984 o curso foi regido pela Resolução nº 69 de 1969, que fixava os mínimos de conteúdo e duração dos cursos de Educação Física. A carga horária do curso era de 2025 horas-aula ministradas em três anos. A seleção de alunos se dava por meio de processo seletivo teórico e prático. Eram oferecidas 80 vagas por ano, sendo 40 para o sexo masculino e 40 para o sexo feminino.

O currículo do curso de Educação Física da UFU tinha, assim como os outros cursos de Educação Física do país, como foco central a aptidão física. o curso era marcado pela “esportivização e biologização do estudo do movimento humano, desconsiderando sua natureza cultural, social e histórica e a visão geral e específica das relações entre homens e seus espaços”. (OLIVEIRA, 2002. p.99)

A partir de 1985, o curso o curso tornou-se pioneiro na reforma curricular, antecipando as novas diretrizes que só seriam aprovadas em 1987. Essa iniciativa apontou mudanças significativas do ponto de vista curricular: aumento da carga horária do curso, implementação de novas disciplinas, introdução do conhecimento de aprofundamento de conhecimentos, a divisão do currículo pleno em áreas de conhecimento, a flexibilização e adaptação curricular segundo os interesses e recursos de cada instituição, contemplando suas peculiaridades regionais.

Esse pioneirismo deveu-se, principalmente, a iniciativa do professor Apolônio Abadio do Carmo, docente do curso de Graduação em Educação Física da UFU e a sua participação nas discussões em nível nacional referentes à elaboração de novas diretrizes curriculares para a área de Educação Física, o que possibilitou-lhe liderar o processo de questionamento da estrutura local existente até 1984.

O curso de graduação em Educação Física optou por uma carga horária total de 2925 horas, das quais 2370 horas seriam destinadas a formação básica e 555 horas destinadas ao aprofundamento (disciplinas optativas), realizadas em no mínimo 8 semestres e no máximo em 14 semestres.

A partir de 1985 o corpo docente do curso passou por um movimento crescente de qualificação, contado com 23 professores, sendo 1 doutorando, 2 mestres, 4 mestrandos, 15 especialistas e 1 graduado.

Em 1991 foram elaboradas as normas do estágio supervisionado, denominado “Ensino Vivenciado” e da Prática de Ensino em Educação Física. A integralização da carga horária do estagio curricular seria feita em no mínimo 30 horas de cada disciplinas, quais sejam: Handebol II, Desenvolvimento Motor, Atletismo: Saltos, Educação Física Especial Adaptada, Ginástica Rítmica Desportiva II, Natação: Peito-Golfinho, Basquetebol: aspectos táticos, Organização e Administração de Educação Física e Desportos e Prática de Ensino, todas com 30 horas cada.

A partir de 2001, ocorreu uma redução de 3,8% e de 9,4% na carga horária total e no numero de disciplinas do núcleo obrigatório, em razão da fusão de algumas disciplinas.

O curso de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia, desde sua implantação, constituiu-se como um curso de licenciatura:

Notou-se o desenvolvimento, de forma paradoxal, de uma perspectiva de “licenciatura ampliada” na tentativa de formar professores capazes de atuar na área escolar e não-escolar. Extrapolaram-se os limites de qualificação e de habilitação profissional que atuariam na rede escolar, na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio. Com efeito, tornou-se imprecisa a visualização do perfil desejado dos egressos do curso, em razão da disposição e ordenação das disciplinas elencadas no âmbito da Formação Geral e Aprofundamento de Conhecimentos, caracterizadas pela desportivização e biologização e pelo número comparativamente reduzido de conteúdos necessários para a formação de professores para atuarem na rede escolar. (OLIVEIRA, 2002. p.135)

Desde a sua criação o curso de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, não passou por nenhum tipo de avaliação curricular permanente, as reformas se deram, principalmente, em virtude de determinações legais.

 

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